Crómio
by Duarte S.
· 20/02/2026
Published 20/02/2026 15:41
Estava a beber o café devagar
quando me vi na máquina —
o queixo puxado para a esquerda,
os olhos dois borrões escuros,
a testa inflada como se o metal
não soubesse onde parar.
A barista deslocou-se
e eu deslocei-me com ela,
a cara a reconfigurar-se
conforme a curva do crómio
aquecido por dentro.
Por um segundo fui alguém
que nunca tinha visto.
A cara que olhava de volta
tinha os meus anos mas não a minha
certeza de ser eu.
Ela perguntou se queria mais água.
Disse que não.
No crómio, a minha boca contraiu-se
com a palavra.
Ficou ali mais tempo do que o gesto —
a boca fechada, a cara esticada,
ninguém que a reconhecesse
a não ser o metal.