Papel

by Duarte S. · 21/03/2026
Published 21/03/2026 14:14

Ela não me olhou quando mo deu.

Dobrado em quartos, o lenço branco,

pressionado na minha palma

como quem entrega algo

sem explicar para que serve.


Eu não sabia que estava a chorar.

Não sei quando começou —

se foi no terminal, se foi antes,

se foi alguma manhã desta semana

que ficou presa na garganta.


As portas abriram. Ela saiu.

Nenhum de nós disse nada.

O eléctrico voltou ao ruído

de ferro e de travão.


À noite encontrei o lenço no bolso.

Ainda dobrado. Ainda limpo.

Não sei o que fazer

com uma gentileza que não pedi

e não usei.

#silêncio #solidão urbana

Related poems →

More by Duarte S.

Read "Papel" by Duarte S.. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Duarte S..