A Manta Castanha
by Duarte S.
· 14/04/2026
Published 14/04/2026 10:17
Estava sempre dobrada na segunda prateleira
do armário do corredor —
castanha, lã grossa, pesada,
do género que já não se faz.
Quando tinha febre, a minha mãe ia buscá-la.
Ficava no sofá debaixo dela,
demasiado quente e sem me importar,
a ver televisão com os olhos a fechar.
Fui lá no fim de semana.
Abri o armário.
A prateleira vazia.
A minha mãe disse
— a Filipa levou-a —
com aquele tom de quem resolve um facto.
Não era a manta.
Era o não ter sido avisado.
Era a manta ter passado a ser de alguém
em vez de ser de todos, de ninguém,
do armário do corredor.
No fundo da prateleira,
uma marca de pó
à volta do espaço exacto
onde esteve dobrada durante anos.
O contorno dela.
Sem ela.